Fé e ciência salvam paciente do covid-19 em Manaus


Antônio Nelson Jr., gestor municipal de Manaus, foi um dos primeiros pacientes a ser internado no Hospital Adventista de Manaus com covid-19. Hoje, ele faz parte dos mais de 450 pacientes curados da doença com o tratamento na instituição

Até o dia 5 de junho deste ano, a pandemia do covid-19 deixou um rastro de 6,6 milhões de casos e 391.656 mortos em todo o mundo. No Brasil, o número de casos permanece em 614.941, e 34.021 mortos. Entretanto, mesmo em meio ao caos da pandemia, muitos pacientes tem orgulho de dizer que venceram a doença. Só no Hospital Adventista de Manaus, até esta quarta-feira (10), 454 pacientes tiveram alta médica depois da cura da doença.

Um desses milagres da pandemia do novo coronavírus é Antônio Nelson Jr., de 39 anos, secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade da cidade de Manaus. Ele, que foi um dos primeiros pacientes a serem internados no Hospital por causa do covid-19, se descreve como alguém de “boa saúde, mas um pouco acima do peso.” Para ele, não havia chances de a doença afetá-lo. Mas foi em março de 2020 que tudo mudou radicalmente.

“A gente sempre pensa que a doença não vai chegar na gente, e de fato, eu pensava assim. Me considerava, inclusive, fora da faixa de risco da pandemia. Até que teve um dia em que eu fiz o teste e deu positivo. Fiquei surpreso, e me isolei em casa, seguindo os protocolos de tratamento de gripe, porque achava que ia dar tudo certo. Só que a minha falta de ar começou a se agravar, e eu fui para o Hospital Adventista”, relata.

Hospital de referência

Com a pandemia do novo coronavírus, muitos hospitais precisaram se preparar às pressas para receber novos pacientes vítimas de covid-19. Não foi o caso do Hospital Adventista de Manaus, presente na capital amazonense desde 1976. De acordo com o médico Guilherme Macedo, diretor técnico médico do Hospital, a preparação da equipe e da estrutura e a adoção de protocolos de atendimento ocorreram bem antes que a pandemia tomasse forma e corpo no Brasil.

“Quando vimos que a pandemia tinha iminência de chegar ao Brasil e ao Amazonas, nós formamos um comitê composto por vários profissionais para definir ações assistenciais e a estrutura adequada para os pacientes que viriam para cá para tratar o covid-19. Com essa estrutura e preparação, além dos protocolos adotados muito antes de tudo acontecer, foi possível atender com excelência o primeiro paciente que deu entrada no nosso Serviço de Pronto-Atendimento.”

E, de fato, uma das coisas que surpreenderam Antônio Nelson no tratamento foi o preparo da equipe médica da unidade de saúde e a estrutura do hospital. Na unidade de saúde, foi internado direto no Centro de Terapia Intensiva (CTI). “Eu precisei ir primeiro para uma unidade pequena, para receber os primeiros cuidados, porque a falta de ar já estava insuportável. Quando me deram o sinal verde, fui transferido para o Hospital Adventista. Já estava usando o cateter para respirar, e quando eu cheguei no hospital e vi a paramentação da equipe, caiu a minha ficha de que eu estava imerso nessa pandemia.”

“Cada paciente é único”

Para Guilherme Macedo, ver cada paciente como único foi a chave para um tratamento eficaz. Para isso, o comitê formado antes da pandemia tomar forma no estado precisou analisar como o vírus estava se comportando no Brasil e no mundo, bem como as suas mutações e quais os tratamentos que poderiam ser adotados. Com isso, os protocolos eram e são ajustados continuamente, baseados em informações de medicamentos e condutas adotados que deram certo no tratamento.

“Todos os dias, recebíamos informações da nossa Comissão de Controle e Infecção Hospitalar (CCIH) do hospital, além da Organização Mundial da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que teve papel importante nesse processo. O hospital também mantém um Centro de Ensino e Pesquisa, e os médicos integrantes dessa equipe tinham a responsabilidade de, diariamente, coletar informações que pudessem dar subsídios para atualizar os protocolos”, completa.

O diretor médico do hospital salienta que outro fator que auxiliou na recuperação de cada paciente foi uma integração completa entre todas as especialidades. “Não apenas o corpo médico, mas psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, enfermeiros, todos mergulharam de corpo e alma no combate à pandemia, para salvar todos os nossos pacientes, porque entendemos que cada paciente é único, e assim deve ser tratado.”

Oração de mãe: remédio inquestionável

Para Antônio, o quadro foi difícil, mas para sua mãe, a professora Therezinha Ruiz, ver dois filhos com covid-19 foi extremamente agoniante. A mãe conta que só o que fazia era rezar, tanto por Antônio como por Clifford Nelson, outro filho que também havia sido vítima da doença. Clifford sarou mais rápido, mas Antônio precisou ficar internado. Por ser do grupo de risco e para evitar o contágio, dona Therezinha não pôde, de maneira alguma, ir ao hospital.

Therezinha Ruiz, mãe de Nelson Jr.

“Eu recebia as informações do quadro clínico do Antônio pela equipe médica e pela equipe de enfermagem, e de vez em quando, por algum dos irmãos dele que ia no hospital pegar informações. Me agoniava saber que eu não podia ficar perto do meu filho, não podia estar acalentando, não podia dar um apoio próximo por causa do contágio. Nós somos católicos, então tudo o que eu podia fazer era rezar. Desligava a televisão e ia rezar. Ligava nos canais religiosos, e começava a rezar. Todos nós, familiares e amigos, nos unimos em uma corrente com um único objetivo: salvar o Antônio.”

A mãe lembra que um dos momentos de mais angústia foi quando chegou a notícia de que Antônio seria entubado, mesmo depois de ter apresentado uma pequena melhora. “Na cabeça da gente, não tem explicações. A gente espera que o tratamento siga por um lado, mas não sabemos como o corpo reage. Eu tenho um outro filho médico, e ele me explicava tudo de novo, e tentava me acalmar. Durante o dia, eu ficava calma, mas de noite, eu me agoniava. E eu pedia diariamente a Deus que salvasse o meu filho, porque ele tem uma família para cuidar, e uma filha ainda bebê.”

Intubação, recuperação e cura

Por estar em um estágio avançado da covid-19, Antônio precisou ser intubado, e permaneceu assim por 18 dias. O período do coma induzido foi marcado por uma batalha intensa contra a doença e outros aliados dela: insuficiência renal, pneumonia bacteriana, e diversos processos que, se não fossem bem tratados, poderiam tê-lo levado a óbito. “A equipe do hospital trabalhou intensamente durante esse período pela minha recuperação. Pra eles, tudo era muito novo, porque a doença tinha acabado de chegar e, de cara, eles tiveram que lidar com essa complicação.”

Nelson relembra que o que ajudou na sua recuperação foi receber um tratamento humanizado por parte dos técnicos de enfermagem e dos enfermeiros. Uma coisa que marcou o gestor municipal foi que, durante a administração dos medicamentos, os técnicos perguntavam como ele estava se sentindo e lhe ofereciam uma oração. “Foi aí que eu senti ainda mais que Deus estava comigo e cuidando de mim. Senti uma força que eu sabia que não vinha de mim, porque eu tinha perdido um pouco das esperanças”, conta.

Nelson Jr., curado de Covid-19

“Tenho certeza que Deus usou os profissionais do hospital, e que as orações da minha família me ajudaram bastante. Mas todas as vezes que eu sentia os profissionais me tocarem com uma oração, eu me sentia puxado para as coisas boas que estavam acontecendo. Eu lembro de uma vez que uma amiga terminou o seu turno e foi me levar um medicamento, chamado “Oração”. E depois que eu recebi esse primeiro remédio e passei a ler essas mensagens, eu senti que a minha mente foi ficando mais leve, que as coisas começaram a melhorar. Sei que foi Deus que fez isso por mim.”

Hoje em casa e curado do covid-19, o gestor municipal se considera um novo homem. Ele é grato a Deus por ter sido curado, e considera que recebeu uma nova chance, tanto para ver a filha crescer e educá-la, como para fazer outras coisas grandiosas. Sua mensagem para aqueles que ainda lutam contra a doença é: mantenham a fé.

“Ninguém quer passar pelo vale da sombra da morte. Nenhuma ovelha quer ficar perdida. Basta ter fé e basta acreditar, que Deus vai dar as mãos como o Bom Pastor, e vai nos conduzir para o caminho que devemos ser conduzidos. A fé pode ser pequena ou grande, mas você precisa alimentá-la, para que a sua resposta venha. Confiar em Deus, colocar a vida nas mãos dEle, é o segredo para que tudo fique bem.”